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Quarta-feira - 17/10/2017 Crônica: Um toque de brisa em Regência

 

Um toque de brisa em Regência

Pela varanda chegava uma boa brisa do Atlântico. O verão está pelos meados. É bom morar na beira do mar, digo sem receio: é excepcional – embora haja os renitentes. O que fazer? Nada. O homem tem seus juízos. Passo horas pela casinha bucólica de um pintor celebrizado por essas largas terras. Seu nome: Luiz Natal, naïf por natureza, pontuador de temas simples, senhor de muitas cores, intenso no trato, além de ser singular causeur; expressão que significa “bom de conversa”.

Luiz Natal está aniversariando. Palmas e cantigas para o genuíno primitivista que alimenta parte da alma pictórica de Linhares com uma observação: como ele gostaria de vender com mais intensidades seus quadros! Faltam mecenas por estas boas terras. Fica o apelo: Minha gente salvemos nossos artistas, meus amigos, meus contrários, salvemos nossos artistas. O apelo é bandeiriano, isto é, tem o rigor de Manuel Bandeira.

 

Na verdade, Natal tem algo de efêmero – no sentido doce do termo -, na medida em que, nos seus quadros, busca as grandes arrumações de sua terra: praias, essencialmente Regência Augusta, tartarugas, o congo, as casinhas curvilíneas, as muitas canoas e barcos e o céu intensamente azul. Eu grito para o mundo: Natal pinta com o coração, e o resultado é o bucolismo simples e alegre. Hoje, já tem seus discípulos, que disciplinam cores arrebatadoras em quadros. Eduardo (Dudu) é um exemplo de primeira linha, e não demora será um dos primitivistas mais celebrados do estado. Quem viver verá.

 

            Tenho lá minhas inquietudes quando estou diante de Natal. Há muito se mudou para Regência Augusta, exatamente para a Rua São Benedito, onde conserva um ateliê de primeiríssima linha. Já o admirava quando morava pelas imediações do Rio Pequeno, em Linhares.

            Sua casinha é um espanto. Todos os recantos receberam pinceladas lúdicas, lembrando Alberto da Veiga Guignard, pintor que formou corrente na primeira metade do século 20. Na verdade (Guignard) nasceu em 25 de fevereiro de 1896 em Nova Friburgo-RJ e veio a morrer em 26 de junho de 1962 em Belo Horizonte, sendo sepultado em Ouro Preto, a cidade que o amava abundantemente.

Solitário, mas não amigo da solidão, beberrão, nascido menino rico, mas administrando uma vida de escassez, Guignard levou consigo dois traumas que lhe moldaram a vida: o primeiro, adquirido aos dez anos, com a morte do pai; o segundo, que o atingiu aos 30 anos, quando foi abandonado pela esposa, após a morte do único filho do casal, de apenas um ano. Era um homem que vivia a dimensão humana, isto é, senhor de alvíssaras e em outros momentos senhor do absurdo. Guignard gostava de repetir um pensamento de David Hume: “ É difícil para um homem falar longamente sobre si mesmo sem vaidade; portanto, serei breve”. Leporino, fugia das pessoas, escondia os traços deformantes.

            Natal debulha o dia. Disse-me com carinho que ao pintar perde a noção do dia e aproxima-se das divindades que cercam de proteção sua casinha. “Bezerra, a pintura me transforma em anjo”, segredou no meu ouvido. Começou a pintar com 21 anos. Seu ateliê está vestido de adereços os mais diversos. É a alma carnavalesca do pintor primitivista. Pelas paredes: Regina Massete, Vaninho, Jeveaux, Elcio Cardoso, Nice, Paulo de Paula, Pedro Colombi e outros mais.

            Natal fará exposição por estes dias. Fui levá-lo o abrigo da Secretaria Municipal de Cultura. Na verdade Linhares não pode prescindir dos traços do grande pintor. Pelas mãos de Natal aceita-se o mundo, não importa sua vastidão. Regência serpenteia seus quadros. 

            Já é noite em Regência Augusta. Gostaria de topar com Miúdo para falar das virtudes do Caboclo Bernardo, honra e glória deste belo arraial de casinhas e gente mesclada. A propósito, a Prefeitura Municipal de Linhares lançou seu primeiro selo comemorativo via Empresa Brasileira dos Correios e Telégrafos. Miúdo é o grande personagem. Surge como guardião da memória, exemplo de apelo às tradições.

 

Antonio Bezerra Neto

Secretário de Cultura de Linhares

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